Ansiedade
Pensamento catastrófico e por que a mente sempre espera o pior
Pensamento catastrófico é a tendência de interpretar situações diferentes sempre do mesmo jeito, com a ideia de que “vai dar tudo errado”. A mente faz isso porque busca padrões o tempo todo, uma herança da nossa evolução. Só que muitos desses padrões não existem. Se a interpretação é sempre parecida diante de fatos diferentes, vale perguntar qual a chance real de ela ser verdadeira.
Por que a gente se agarra aos próprios pensamentos?
De muitos jeitos e de muitas formas, nos agarramos aos nossos pensamentos e criamos um vínculo tão forte com eles que desconsideramos outras hipóteses. E agimos de acordo com eles, tentando fazer com que o mundo e o comportamento dos outros se adaptem ao que pensamos.
Qual a chance real de o pior acontecer?
Uma pergunta que sempre faço a alguns pacientes que têm sempre a mesma interpretação diante dos fatos, digamos que um pensamento catastrófico do tipo “vai dar tudo errado”, é esta. Se a interpretação é sempre parecida diante de fatos diferentes, qual a chance real desse pensamento ser verdadeiro?
Por que a mente vê padrões onde eles não existem?
Nossa mente busca a todo instante compreender padrões. É assim que ela funciona, e isso tem uma explicação evolucionista. Acontece que não estamos mais (pelo menos no nosso contexto) desesperados pela sobrevivência a todo momento, e muitos dos padrões que tentamos enxergar quase sempre não existem.
Pense em quando você quer comprar um tênis novo e fica com isso na cabeça, procurando vários modelos. O que geralmente acontece? Você começa a enxergar mais os tênis das pessoas. Não é que não enxergava antes, mas passa a perceber melhor. E daí é um passo para começar a interpretar sinais. Você vê um tênis específico e já acha que é aquele que tem que comprar. Outro exemplo é associar uma camiseta do seu time a uma derrota e nunca mais usá-la em dia de jogo.
Todos temos nossos vieses, e a nossa história de vida vai moldando constantemente os nossos filtros, ou seja, a forma como interpretamos os fatos à nossa volta. Querer que os outros e o mundo se encaixem nas nossas interpretações é reduzir o mundo ao nosso próprio quintal, e ele é muito maior que isso.
Que histórias a sua mente conta sobre você e sobre os outros?
Nossa mente é mestra em criar narrativas sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre o que nos acontece. Ela faz isso a partir da nossa história de vida e com o objetivo de nos proteger de algum modo. Quando o outro faz algo que nos gera desconforto, criamos um enredo para tentar lidar melhor, como “terminou comigo, mas tá vendo isso que ele faz?” ou “essa pessoa não é madura o suficiente”. E fazemos o mesmo com a gente.
Prender-se tanto à própria cabeça é desconsiderar a vida acontecendo para além dos limites da nossa compreensão, e isso provoca um fechamento. Deixamos de considerar novas perspectivas e as coisas novas que a vida pode nos dar. Por isso a literatura e a filosofia são tão úteis, tanto quanto a psicologia. Elas alargam o nosso campo de compreensão.
Flexibilidade cognitiva é preditora de uma vida com mais bem-estar e qualidade.
Como lidar com pensamentos catastróficos?
- Pergunte qual a chance real. Se a interpretação é sempre a mesma diante de fatos diferentes, desconfie dela.
- Lembre que você não tem todas as variáveis. O outro e os fatos vão sempre além daquilo que imaginamos. Nunca teremos acesso a tudo o que constitui uma situação.
- Registre o que passa pela sua cabeça. Eu tenho um diário em que escrevo todos os dias como estou e o que passou pela minha cabeça. Um dia, preocupado com um problema, fui olhar o que tinha escrito na mesma data um ano antes. Parecia que eu tinha escrito aquilo naquele dia. No início pensei que estava estagnado. Ao mesmo tempo, isso me fez olhar com mais atenção para os meus padrões de pensamento e considerar outras variáveis no meu sofrimento.
- Pergunte o que está deixando passar. Quando nos pegamos em sofrimento, vale tentar perceber o que estamos perdendo ao ficarmos presos somente naquilo que a nossa cabeça diz.
- Abra-se a outras perspectivas. Consuma menos conteúdo rápido e mais conteúdo denso, leia literatura e filosofia e tenha abertura para pensar diferente, nas suas relações e no mundo.
Na terapia, tentamos olhar para um comportamento específico e ir juntando as peças para compreender padrões, e isso já leva tempo. Imagine o quanto é mais complicado acreditar somente na nossa cabeça e ficar preso a ela.
Perguntas frequentes
O que é pensamento catastrófico?
É a tendência de interpretar situações diferentes sempre da mesma forma, esperando o pior. Por exemplo, pensar que “vai dar tudo errado” mesmo quando os fatos são diferentes a cada vez.
Por que a mente sempre espera o pior?
Porque ela busca padrões o tempo todo, uma herança evolutiva de quando precisávamos estar atentos à sobrevivência. Hoje, muitos desses padrões não existem, mas a mente continua procurando por eles.
Pensamento catastrófico é sinal de ansiedade?
Pensar no pior de vez em quando é comum. Quando esse padrão se repete muito e passa a gerar sofrimento ou atrapalhar a rotina, vale buscar ajuda profissional para entender o que está acontecendo.
Escrever um diário ajuda?
Pode ajudar. Registrar o que passa pela cabeça permite enxergar padrões que se repetem ao longo do tempo e considerar outras variáveis no próprio sofrimento.
Como a terapia ajuda com pensamentos catastróficos?
Na terapia, olhamos para comportamentos e pensamentos específicos e vamos juntando as peças para compreender os padrões. Assim fica possível se relacionar com esses pensamentos de outra forma, sem ficar preso a eles.