Ruminação e conexão

Como sair da própria cabeça e lidar com a ruminação

Quando ficamos presos num emaranhado de pensamentos, a tendência é se isolar, e o isolamento, na maioria das vezes, piora o sofrimento. Um caminho mais consistente é sair de si e se abrir aos encontros do dia a dia, mesmo os mais simples, como uma conversa rápida na padaria. Isso não resolve tudo, mas ajuda a olhar para os mesmos pensamentos de um jeito mais leve.

Por que o isolamento piora a ruminação?

Sair de si e ir ao encontro do outro envolve, muitas vezes, colocar-se diante de si, dos seus medos, raivas e dificuldades. A partir desse encontro, aquilo que há em você se altera, ganha novas cores e nuances. Por isso o isolamento, na maioria das vezes, pode piorar o nosso sofrimento.

Não estou dizendo que você precisa se expor 100% ou sair contando tudo da sua vida para um desconhecido. Mas essa capacidade de dialogar e deixar-se envolver pela vida cotidiana e simples pode ser um caminho mais consistente para sair um pouco do emaranhado de pensamentos em que ficamos presos.

Como uma conversa simples pode mudar o seu dia?

Teve uma semana em que eu estava pensativo, ruminativo, com pensamentos que não eram muito úteis. Fui à padaria do mercado comprar pão e um senhorzinho começou a puxar papo comigo, papo besta mesmo, sabe? Dei total trela, entrei na conversa, demorei uns cinco minutos a mais no mercado. Falamos de pão, do tempo seco, nada profundo.

Só que aquilo melhorou meu humor e me fez sair da minha própria cabeça. Depois, olhei para os mesmos pensamentos que estavam gerando desconforto de um jeito um pouco mais leve.

Outra vez, fui correr sozinho e fiz um experimento. Resolvi dar bom dia a todo mundo por quem eu passasse na rua, assim, de besta mesmo, haha. Foi tão bom! Meu humor ficou muito melhor e até aguentei melhor a corrida.

O que é, de fato, um encontro?

A palavra encontro tem raiz no latim e significa algo como “estar diante de, em frente a alguém”. Nossa vida é feita de encontros com a mãe, logo ao nascer, com colegas, familiares, amigos, com o seu animal de estimação. Até o contato on-line pode ser uma plataforma de encontro. Ao mesmo tempo, pode ser um campo de isolamento, já que nas redes sociais é comum nos fecharmos, presos na própria cabeça.

Quem sou eu diante dos encontros que a vida me oferece? Quem sou eu quando esbarro com alguém no ônibus ou na academia? Fechado em mim, ou oferecendo pelo menos um bom dia? Encontrar-se significa estar aberto à contribuição do outro na minha vida.

Por que fugir do que sentimos não traz bem-estar?

É a partir dos encontros com os outros que se torna possível um encontro saudável consigo mesmo. Todos os dias existe a possibilidade de estar em contato consigo e, ao mesmo tempo, todos os dias evitamos isso. Evitamos a tristeza que vem, a ansiedade que aparece, o medo que surge, a raiva que incomoda, em busca da ilusão de um bem-estar sem fim.

Não existe sensação de bem-estar com a evitação constante de nós mesmos.

Ser vulnerável é ser fraco?

Cultivar a sensibilidade e a vulnerabilidade não torna ninguém mais fraco, mas alguém que vive de forma mais profunda. Sentir e expressar o que sente é uma habilidade humana que gera conexão. Colocar o que você sente diante do outro é uma possibilidade que, muitas vezes, negligenciamos.

Como começar a sair da própria cabeça?

  1. Perceba quando está ruminando, preso a pensamentos que giram e não ajudam.
  2. Dê espaço aos pequenos encontros, como um bom dia ou uma conversa rápida na padaria.
  3. Use as redes com atenção, porque elas também podem ser um campo de isolamento.
  4. Não fuja do que sente. Tristeza, ansiedade, medo e raiva também fazem parte do encontro consigo.
  5. Respeite os seus limites. Somos seres que buscam o contato, seja de maneira autística ou alística. Que tipos de encontro, dentro dos seus limites, você deseja cultivar?

Perguntas frequentes

O que é ruminação?

É quando a cabeça fica presa nos mesmos pensamentos, girando sem chegar a lugar nenhum. Em geral, são pensamentos pouco úteis, que aumentam o desconforto.

Ficar sozinho é sempre ruim?

Não. O problema é o isolamento constante, que, na maioria das vezes, piora o sofrimento. Ninguém precisa se expor por completo, mas abrir-se a pequenos encontros do dia a dia já ajuda.

Pessoas autistas também se beneficiam de encontros?

Sim, cada uma do seu jeito. Somos seres que buscam contato, seja de maneira autística ou alística, e cada pessoa pode escolher, dentro dos próprios limites, que tipos de encontro quer cultivar.

A terapia ajuda a parar de ruminar?

A terapia ajuda a perceber os padrões de pensamento que se repetem e a desenvolver outras formas de se relacionar com eles, para que você não fique preso ao que a sua cabeça diz.

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