Autocobrança
Culpa por descansar e como lidar com a autocobrança
Sentir culpa por descansar é comum numa cultura que mede o nosso valor pela produtividade. Essa culpa não quer dizer que você está fazendo algo errado. A régua que a sustenta é construída socialmente. Em vez de brigar com ela ou simplesmente obedecer, dá para escutá-la e dialogar com ela com mais gentileza, pensando em quem você quer ser consigo ao longo da vida.
Por que sentimos culpa quando não somos produtivos?
Enfrentar a própria culpa é um desafio diário. Culpa por não ter treinado um dia ou dois na academia, por ter comido um doce ou visto um filme. A gente está imerso numa cultura tão focada no utilitarismo e na produtividade que fugir um pouco disso gera assombro e um medo intenso.
Como assim posso não ser produtivo alguns dias? Como assim não preciso ser funcional o tempo todo? Fugimos o tempo todo de nos acharmos inúteis.
Como essa culpa aparece no dia a dia?
Num feriado, resolvi colocar as coisas em ordem pela manhã, sem ir à academia, que eu sabia que estaria lotada. E o que senti? Uma leve culpa, como se estivesse fazendo algo de errado. Minha cabeça começou a pensar em outras coisas também, como insatisfação corporal, e assim vai. É um saco, e sei que você passa por isso em outros níveis.
Engraçado que, ao sentir culpa, a nossa atenção se direciona ainda mais para aquilo com que estamos insatisfeitos. Perdemos muito ao focar somente naquilo que nos falta.
Preciso mesmo de tanta rigidez comigo?
Ao mesmo tempo, esse desconforto é uma oportunidade de ouro para ser mais gentil comigo mesmo e desenvolver uma perspectiva de longo prazo. Quem eu quero ser comigo mesmo ao longo da minha vida?
É provável que eu treine e faça atividade física para sempre. Então, preciso mesmo de tanta rigidez? A resposta é não, mas mesmo assim a culpa e a sensação de estar fazendo algo errado aparecem. Questionar isso é importante, até porque essa noção de que é errado é minha, individual, mas foi construída socialmente. Talvez, se eu fosse para a academia, me cobrasse por outras coisas.
Como dialogar com a autocobrança?
O que tenho aprendido cada vez mais é escutar essa voz falando dentro de mim, ouvi-la e até ser gentil com ela, estabelecendo um diálogo com a minha autocobrança. Essa ternura comigo, que é algo totalmente novo para mim, colabora para que eu não entre num looping intenso de pensamentos sem fim.
- Perceba a culpa quando ela aparecer e o que ela está dizendo sobre você.
- Pergunte de onde vem essa régua. Muitas vezes, ela foi construída socialmente, e não é uma verdade sobre você.
- Pense no longo prazo. Quem você quer ser consigo ao longo da vida?
- Converse com a autocobrança com gentileza, em vez de brigar com ela ou simplesmente obedecer.
- Diminua a régua, sobre você e sobre os outros, mesmo sentindo desconforto com isso.
Confesso que tenho treinado diminuir a régua sobre mim e sobre os outros, permitindo-me ser mais flexível comigo mesmo. Eu sei que valerá a pena (espero, né? haha).
Perguntas frequentes
Por que sinto culpa quando descanso?
Porque vivemos numa cultura que mede o valor das pessoas pela produtividade. Essa sensação de estar fazendo algo errado costuma ser uma régua construída socialmente, e não um sinal de que você realmente errou.
Tirar um dia de descanso atrapalha os meus objetivos?
Na maioria das vezes, não. Olhando a longo prazo, um dia fora da rotina pesa pouco. O que costuma pesar é a rigidez constante consigo.
Como parar de me cobrar tanto?
Um caminho é escutar a autocobrança e dialogar com ela com gentileza, em vez de brigar com ela ou simplesmente obedecer. Diminuir a régua sobre si traz desconforto no começo, mas ajuda a sair do looping de pensamentos.
A terapia ajuda com autocobrança e culpa?
Sim. A terapia é um espaço para perceber esses padrões de cobrança, entender de onde vêm e construir uma relação mais gentil e flexível consigo.